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Os quindins de ia-iá

 

Vou começar por uma confissão, para que não tomem minha palavra por vã e meu coração por vil: eu AMO o Brasil. Amo cariocas e paulistas, sergipanos e paraibanos, cearenses e catarinenses, capixabas, potiguares, gaúchos e toda fauna que por aqui há, de matizes, cores e credos tão diversos que fazem, do plural, um povo singular. Confesso, entretanto, nutrir uma paixão especial pelos que habitam a Baía de Todos os Santos, cujo nome já diz da pretensão que os anima e que constitui a ânima da cara que tem sido vendida ao mundo como nossa, com seus rendados e acarajés, afoxés e caymmis. Os baianos, com sua inventividade, exuberância e grandeza simplesmente me encantam, fazendo com que eu bote prrra forrra a negrrrra que tenho dentrrrro de mim, como brincam os amigos ao contato com minha notória germanidade, que felizmente é apenas genética e não cultural, de modo que ano sim, ano também, aterrisso na Cidade de Salvador para nutrir-me da cultura pujante que é, mais do que essencial aos olhos, à alma, isso sem falar no corpinho, que volta revigorado de tanta soltura, pronto pra vestir a couraça que só o frio dá.

Agrada-me o clima, o humor, a música, a culinária, a indolência, a arte, a geografia e a alegria que fazem a festa de quem é abençoado por conhecê-los, mesmo não sendo amigo de João, aquele do violão. Quando lá se está, parece que lugar melhor não há, o que tem sido cantado em prosa, verso e Glauber a ponto de quase irritar os nativos de outras regiões, que não tem Gil para cantar e Carlinhos pra Brownar, nem fazem parte da companhia baiana de patifaria pra apatifar o que é que a baiana tem. A turma é tão unida que basta a certidão de nascimento para ser alçado de medíocre a gênio, Simone que o diga, salva por Caetano em seus piores momentos pelo simples fato de ser da terrinha.

 A terra guarda mistérios, porém, e um deles é de onde nasceu um nome tão longo e horroroso para nomear um povo tão lânguido e vaidoso: soteropolitanos! Isso não é nome, é palavrão, por ironia o maior de todos os coletivos pátrios, que não cabe nem em manchete de primeira página, sob pena de não sobrar notícia pra contar. Claro que para quem vive na capital, baiano é quem nasceu na Baía, e os que nasceram na Bahia tratem de ser outra coisa, como o resto do Brasil faz, aliens que somos da verdadeira natureza brasilis, nascida e criada às margens de Itapuã e daquela ridícula lagoa do Abaeté, que no Sul não passaria de um açude metido a besta, mas na terra de Cabral virou cartão-postal e musical.

A despeito desses excessos, também confesso que  só uma coisa até agora tem me impedido de fazer as malas e mudar-me definitivamente para as águas que banham o Farol da Barra: a política. Escrevo a palavra em minúsculas porque naquelas plagas as maiúsculas só se aplicam aos mandantes, que atendem por uma sigla só, sob a qual todos dormitam sua servidão: ACM, sendo tão vasto e intransigente o poder por este homem exercido que achar entre os baianos quem se oponha vivamente a seus desmandos é mais difícil que agulha no palheiro. Intelectual, artista ou artesão, isso sem falar no zé-povão, não encontrei baiano que não babasse no colo do senador, nem que seja por inveja pela sua competência em manter-se tanto tempo no ápice do apogeu da glória, imbatível, como sempre. Para a gauchada que por lá transita, armada até os dentes com a retórica  oposicionista e cada vez mais petista que nos caracteriza, claro que isso não só dá pano pra manga, como pra pala, poncho e pilcha,  e os debates, além de acalorados, levam quase à exasperação os que não se conformam com a aceitação praticamente unânime que antonio carlos encontra inclusive junto a quem não vota no sujeito.

Esse preâmbulo todo é pra justificar por que estou há horas em frente à TV deliciando-me com  o desmonte público de ACM que, espero,  inicie uma nova era, que não será mais medida por AC ou DC, e sim  Antes da Cassação de Magalhães ou DCM, pois tá mais do que na hora do país criar vergonha na cara e livrar-se de canalhas desse porte, nem que seja pra botar outros no lugar, porém com menos força e, com o tempo, quem sabe com menos freqüência. Corrupção, venalidade, injustiça, miséria e desigualdade não são prerrogativas nossas, mas podem, e devem, ser combatidas porque o que é do homem pode ser desfeito pelo homem e o mal não é genético, só factual. Suponho que até a coisa toda se deslindar muita água vai rolar e muito ônibus de baianos no Senado desembarcar, como a televisão mostra, e  talvez não se confirme a suspensão ou cassação desses crápulas, contudo merecemos um presente melhor para que o Taiti deixe de ser aqui. Quem sabe até, a baianada com essa descubra que é muito melhor do que o seu pior e que não basta dançar e cantar, urge mudar, porque aquilo que nesse momento se revelará aos povos/ surpreenderá a todos não por ser exótico/ mas pelo fato de poder ter sempre / estado oculto quando terá sido o óbvio. Os baianos que me perdoem, mas ACM fora é fundamental ! Axé.

 

Issi/26/04/01

 

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